Previsão de ondas em aplicativo costuma enganar não porque o modelo é ruim, mas porque o usuário não sabe o que está lendo. Os apps mostram números, setas e cores, mas não explicam o que realmente importa. O resultado é clássico: gente surpresa com o mar “errado”, quando na verdade a leitura foi rasa.
O primeiro parâmetro que todo mundo olha é a altura significativa da onda. Ela representa a média do terço mais alto das ondas, não a maior onda do dia. Ou seja: se o app mostra 1,5 m, ondas maiores que isso vão aparecer. Sempre. Altura sozinha não define condição boa ou ruim, define apenas volume médio de energia na superfície.
O segundo parâmetro, e talvez o mais ignorado, é o período. Ele indica o tempo entre uma crista e outra e é o verdadeiro termômetro da energia da onda. Ondas com período longo viajam mais organizadas, entram mais fundo na costa e quebram com mais força. Um mar de 1 m com 14 segundos pode ser muito mais exigente do que um mar de 2 m com 7 segundos. App que não mostra período, ou usuário que ignora, está operando no escuro.
Outro dado fundamental é a direção da onda, geralmente indicada por setas. Aqui mora um erro comum: confundir direção de onde a onda vem com para onde ela vai. A maioria dos apps indica a origem da onda. Isso é decisivo para entender se aquele swell entra direto, entra de lado ou sequer entra naquele trecho de costa. Dois pontos separados por poucos quilômetros podem ter condições completamente diferentes só por causa da orientação da praia.
Além disso, muitos aplicativos separam swell primário, secundário e mar de vento. O swell é onda gerada longe, mais limpa e previsível. O mar de vento é local, curto, bagunçado e muda rápido. Quando o app mostra dois ou três trens de onda, o usuário precisa entender quem manda na condição. Às vezes a altura maior é do mar de vento, mas quem define a navegação é o swell mais organizado.
Outro parâmetro frequentemente subestimado é o vento local. Ele não gera o swell principal, mas destrói ou melhora a superfície. Vento contra deixa o mar cavado e pesado. Vento a favor estica a onda, mas pode empurrar demais. Para esportes de remo, vento muitas vezes pesa mais que a própria altura da onda. Ignorar isso é receita pra sofrimento desnecessário.
Alguns apps mais completos mostram energia da onda, direção do período dominante e até interação com o fundo em zonas costeiras. Esses dados são ouro, mas só fazem sentido quando cruzados com conhecimento local. Fundo raso, laje, areia móvel, canal — nada disso o modelo conhece perfeitamente. Ele estima.
Existe também o fator tempo. Quanto mais longe no horizonte da previsão, maior a incerteza. Previsão de ondas até 48 horas costuma ser muito boa. De 3 a 5 dias é tendência. Passou disso, é leitura de cenário, não decisão operacional. App que promete precisão cirúrgica em 7 dias está vendendo ilusão.
No fim, aplicativo não decide nada. Quem decide é quem entende o que está na tela. Altura, período, direção, vento e tipo de onda precisam ser lidos em conjunto. Separados, não dizem quase nada. Juntos, contam a história completa do mar que vem aí.
Mar não engana. Quem se engana é quem lê número sem contexto.