Todo ano, com a chegada do outono e do inverno, o Brasil assiste a um espetáculo repetido à exaustão: remadas que terminam em naufrágio — seguidas da tradicional encenação de desculpas, digna de uma novela mexicana.
Primeiro ato: o dono do clube? Jamais é culpado. Ele assume a postura daquele CEO distante, surgindo apenas para apagar incêndios que nunca deveriam ter começado. Segundo ato: o capitão? Muitas vezes um novato inconsequente, ávido por mostrar bravura, mas com menos noção de mar do que um turista perdido na areia. Claro, ele também nunca tem culpa; estava ali apenas para “sentir a vibe” da função de lider. Terceiro ato: os alunos? Coitados, transformados em vítimas do destino — inocentes que pagam o pato pelas decisões irresponsáveis de quem deveria liderar.
O roteiro é imutável: “Fomos pegos de surpresa!”. Em pleno século 21, com satélites, aplicativos de alta precisão e avisos meteorológicos pipocando nas redes sociais e na TV a semana inteira, o mar não “enlouquece” de repente. Houve aviso de sobra. Mas, pasmem: para muitos, não é responsabilidade de ninguém colocar um trimarã em mar aberto, com remadores inexperientes empunhando remos de plástico e um capitão que negligenciou riscos óbvios.
No estranho universo do Va’a, quando uma remada de alto risco com uma turma despreparada termina sem feridos, o erro é batizado de “experiência”. É um sinal vermelho que, ignorado, precede a fatalidade — algo que venho alertando há tempos.
Sejamos francos: um trimarã é uma embarcação delicada — chamá-la de “sensível” é um elogio. Amarrar três canoas e lançar essa engenharia de fibra em mar agitado soa como piada de mau gosto. Alguém consultou o fabricante sobre a viabilidade dessa configuração? Alguém calculou o peso total da estrutura somado à tripulação ou a mecânica dessa aberração em mar aberto? Duvido. No Brasil, inventa-se de tudo: trimarãs, quadrimarãs e, em breve, sabe-se lá o quê — até que o destino final seja o fundo do mar.
No vídeo que viralizou, a realidade é crua: remadores sem experiência, alguns sem colete salva-vidas, capitães sem comando para organizar a tripulação e três canoas submergindo. Honestamente, palmas para o fabricante dessas canoas, pois, dada a precariedade da situação, era para terem afundado muito antes.
Como dono de clube, afirmo com convicção: formar capitães de verdade é uma missão árdua, e nem todos possuem o perfil necessário. É preciso coragem para chegar à areia e dizer: “Hoje não haverá remada”. É difícil dizer isso a quem pagou e não entende o risco, mas repito sempre aos meus instrutores: “É melhor frustrar o remador na areia, mantendo-o inteiro, do que traumatizá-lo quebrado no mar.”
A segurança também depende da maturidade do aluno em entender seus limites físicos. Embarcar em uma remada desafiadora sem condições de administrar os riscos é colocar a própria vida e a dos colegas em perigo.
O mar não é um vilão invisível. A previsibilidade existe, assim como os riscos. A irresponsabilidade, essa mestra infalível, está sempre à espreita. Que tal aprendermos de uma vez, antes que o próximo vídeo registre uma fatalidade? Ou continuaremos culpando a maré, o vento, a ondulação ou, quem sabe, alegando que o naufrágio foi "obra de Iemanjá "?