Swell 1, Swell 2 e o Pontal do Recreio

swell 1 e swell 2

Quem rema no Pontal do Recreio aprende rapidamente que olhar apenas para uma previsão de “ondas de 1 metro” diz muito pouco sobre o mar que realmente encontrará.

O Pontal é uma região especialmente interessante porque funciona como uma divisão natural entre a Praia do Recreio e a Praia da Macumba. A Pedra do Pontal interfere na propagação das ondas, cria zonas de sombra, refração, cruzamento de ondulações e mudanças bastante perceptíveis de comportamento em poucos metros.

Por isso, para quem utiliza o Windy, entender a diferença entre Swell 1 e Swell 2 pode ser muito mais importante do que simplesmente olhar o tamanho da onda.

E para quem navega de OC6, V1, surfski ou qualquer outra embarcação, essa leitura deixa de ser apenas curiosidade meteorológica e passa a ser uma ferramenta de segurança.

Primeiro: o que é o Swell 1?

O Swell 1 é a ondulação predominante naquele momento.

Normalmente é o sistema de ondas com maior altura significativa entre os swells identificados pelo modelo.

Ele possui três informações fundamentais:
altura, período e direção.

Imagine que o Windy mostre para o Pontal:

Swell 1: 1,2 m — 12 segundos — Sul

Isso significa que existe uma ondulação predominante chegando do Sul, com altura significativa próxima de 1,2 metro e intervalo médio de aproximadamente 12 segundos entre as ondas.

Mas isso ainda não conta toda a história.

Porque pode existir outro sistema chegando ao mesmo tempo.

É aí que entra o Swell 2.

E o que é o Swell 2?

O Swell 2 é uma segunda ondulação presente naquela mesma região.

Ela pode ter sido criada por outro sistema meteorológico, muitas vezes a centenas ou milhares de quilômetros de distância, e pode chegar ao Rio de Janeiro com uma direção completamente diferente do swell principal.

Por exemplo:

Swell 1: 1,2 m — 12 s — Sul
Swell 2: 0,7 m — 8 s — Sudeste

Isso não significa que teremos simplesmente ondas de 1,9 metro.

Significa que existem dois trens de ondas atravessando a mesma região.

E isso pode mudar completamente o comportamento do mar no Pontal.

Cenário 1 — Swell principal de Sul e Swell 2 pequeno na mesma direção

Componente Altura Período Direção
Swell 1 1,2 m 12 s Sul
Swell 2 0,3 m 8 s SSE

Esse tende a ser um cenário relativamente fácil de interpretar.

As duas ondulações possuem direções próximas. O resultado normalmente é um mar com linhas relativamente organizadas, principalmente quando não existe vento forte interferindo.

No Pontal, entretanto, os 12 segundos de período merecem atenção.

Ondas com período maior carregam mais energia e começam a sentir o fundo em profundidades maiores.
Quando se aproximam das pedras e dos bancos de areia existentes ao redor do Pontal, podem crescer rapidamente.

É aquele típico dia em que, olhando de longe, o mar parece bonito e organizado.

Para uma OC6 experiente, pode inclusive ser excelente.

Para um iniciante, talvez não.

Organização não significa ausência de energia.

Cenário 2 — Swell 1 de Sul e Swell 2 de Sudeste com tamanho parecido

Swell 1: 1,0 m — 11 s — Sul
Swell 2: 0,8 m — 9 s — Sudeste

Aqui a conversa muda.

Temos dois sistemas relevantes chegando de ângulos diferentes.

Na Praia do Recreio, a ondulação de Sudeste pode ter presença bastante significativa.

Ao contornar o Pontal e interagir com o swell de Sul, algumas regiões podem apresentar ondas cruzadas.

Para quem está remando, a sensação é completamente diferente.

A canoa começa a receber energia por ângulos diferentes. Você pode passar uma onda de frente e, poucos segundos depois, receber outra quase lateralmente.

Para uma OC6 isso significa mais trabalho para o leme e muito mais atenção da tripulação.

Mar difícil não é necessariamente mar grande.

Às vezes, um mar de 1 metro com duas ondulações cruzadas pode exigir muito mais técnica do que um swell organizado de 1,5 metro.

Cenário 3 — Swell de Sudoeste entrando pela Praia da Macumba

Swell 1: 1,5 m — 14 s — Sudoeste
Swell 2: 0,4 m — 8 s — Sul

Nesse cenário, a Praia da Macumba merece atenção especial.

Uma ondulação de Sudoeste pode encontrar uma exposição muito diferente daquela encontrada na Praia do Recreio.

Ao se aproximar da Pedra do Pontal, essa ondulação sofre efeitos de refração.

Em termos simples, a onda começa a mudar de direção quando sente o fundo.

Por isso, mesmo áreas aparentemente protegidas podem acabar recebendo parte dessa energia.

E existe outro detalhe extremamente importante: 14 segundos de período.

Um swell de 1,5 metro com 14 segundos não deve ser interpretado da mesma forma que uma onda de 1,5 metro com 6 segundos.

O primeiro transporta muito mais energia.

Pode produzir séries bastante fortes nas pedras mesmo quando existe um intervalo relativamente tranquilo entre elas.

É exatamente aquele cenário perigoso em que alguém observa o mar durante dois minutos, vê pouca coisa acontecendo e conclui:

“Está tranquilo.”

Até entrar uma série.

Cenário 4 — Dois swells fortes vindo de direções diferentes

Swell 1: 1,5 m — 12 s — Sudeste
Swell 2: 1,0 m — 11 s — Sudoeste

Esse cenário merece enorme atenção no Pontal.

Existem dois sistemas relativamente fortes chegando de lados diferentes.

A Pedra do Pontal fica praticamente no meio dessa interação.

Ondas podem refratar, contornar determinadas regiões e se encontrar novamente.

Para uma canoa pequena, isso pode gerar um mar extremamente irregular.

Em determinados momentos a canoa sobe de frente. Depois recebe outra ondulação pelo través. Pouco depois surge uma onda de popa.

Para um leme experiente, é um mar que exige leitura constante.

Para um leme menos experiente, pode virar rapidamente um problema.

É também uma situação na qual simplesmente olhar o campo “Waves” no Windy pode esconder informações importantes.

Cenário 5 — Apenas 80 centímetros, mas 16 segundos de período

Swell 1: 0,8 m — 16 s — Sul

Muita gente olha apenas:

“0,8 metro.”

E conclui:

“Mar pequeno.”

Pode ser um erro.

Dezesseis segundos representam uma ondulação de período longo.

Ela viajou uma grande distância e possui bastante energia.

Quando chega aos bancos de areia e às formações rochosas ao redor do Pontal, pode aumentar significativamente.

Também costuma existir uma característica muito importante nesses dias: grandes intervalos entre as séries.

Durante alguns minutos praticamente nada acontece.

Depois entram três ou quatro ondas consideravelmente maiores.

Nunca avalie a condição do mar observando apenas duas ou três ondas. Observe as séries.

Cenário 6 — Ondas maiores, mas período muito curto

1,6 m — 6 s — Sudeste

Visualmente pode parecer um mar muito pior.

Existe onda para todo lado. A superfície fica mexida. A canoa bate bastante.

Mas estamos falando de ondas com período curto, normalmente muito influenciadas pelo vento regional.

Isso não significa que seja seguro.

Para OC6 pode ser extremamente desgastante.

Porém é um tipo de energia diferente de um swell de 14 ou 16 segundos.

1,4 m / 6 s e 1,4 m / 15 s são mares completamente diferentes.

O ponto onde tudo se complica: a Pedra do Pontal

Existe ainda um elemento que nenhum aplicativo consegue representar perfeitamente: a própria geografia do Pontal.

A onda não simplesmente chega até ali mantendo exatamente a mesma direção mostrada no Windy.

Quando encontra águas mais rasas, ela começa a sofrer transformação.

  • Pode refratar;
  • Pode aumentar;
  • Pode diminuir;
  • Pode mudar de direção;
  • Pode contornar parte da formação rochosa;
  • Pode encontrar outra ondulação.

Além disso, existem bancos de areia que mudam ao longo do tempo.

Depois de ressacas, todo o desenho do fundo pode se modificar.

É por isso que duas previsões aparentemente semelhantes no Windy podem resultar em mares bastante diferentes no Pontal.

E ainda existe a famosa brisa

Até agora falamos basicamente de swell.

Mas existe outro personagem nessa história: a brisa.

Imagine um swell perfeito de Sul: 1,2 m — 12 s — Sul

Se existir vento fraco de terra, o mar pode permanecer relativamente organizado.

Agora coloque vento forte de Sudeste sobre aquele mesmo swell.

A superfície começa a produzir ondas locais.

Passamos então a ter:

Swell principal + Swell secundário + ondas geradas pelo vento

Para quem está dentro de uma OC6, o resultado pode ser um mar completamente diferente daquele observado
apenas pela altura do swell.

Para o Pontal, nunca olhe somente “quantos metros”

Talvez essa seja a principal mensagem deste artigo.

Quando alguém pergunta:

“Quanto está o mar amanhã?”

e alguém responde:

“Um metro.”

essa informação isoladamente quase não significa nada.

No Pontal, eu prefiro saber:

  • Um metro vindo de onde?
  • Com qual período?
  • Existe Swell 2?
  • De qual direção vem esse Swell 2?
  • Qual a energia das ondulações?
  • Qual a intensidade do vento?
  • De onde está soprando?

Porque dois dias com previsão de 1 metro podem apresentar condições completamente diferentes.

Um pode proporcionar uma remada maravilhosa.

O outro pode produzir um mar extremamente técnico.

O Windy ajuda muito. Mas o Pontal continua sendo o Pontal.

Aplicativos meteorológicos são ferramentas extraordinárias.

Hoje conseguimos visualizar swell, período, energia, direção, vento e diversos outros parâmetros com uma precisão que seria impensável alguns anos atrás.

Mas existe um risco: transformar previsão em certeza.

O Windy mostra aquilo que os modelos estimam que acontecerá em uma determinada região. Dependendo do modelo utilizado ele faz a média de 25 km a 50 km quadrado de uma região.

Ele não consegue mostrar perfeitamente o que uma onda fará exatamente quando encontrar uma pedra, um banco de areia ou uma corrente localizada a poucos metros da costa.

E no Pontal essas pequenas diferenças importam muito.

Por isso, a previsão deve sempre ser combinada com aquilo que talvez seja a ferramenta mais antiga de quem navega:

Observar o mar.

  • Olhar as séries;
  • Observar onde estão quebrando;
  • Ver como a água está se movimentando ao redor das pedras;
  • Perceber para onde a espuma está sendo carregada;
  • Comparar aquilo que estava previsto com aquilo que realmente está acontecendo.

Porque aprender a usar Swell 1 e Swell 2 é importante.

Mas aprender a enxergar o que esses swells estão fazendo quando chegam ao Pontal é muito mais importante.

E talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira leitura do mar.