Na canoa havaiana existe uma linha fina, quase invisível, entre coragem e imprudência. Quem está de fora acha que é tudo a mesma coisa: enfrentar mar mexido, sair no escuro, “meter a cara”. Mas quem gere clube, quem assina embaixo, quem coloca gente no mar todo dia, sabe que coragem de verdade muitas vezes aparece justamente quando você decide não remar.
Sou gestor da Bravus Va’a, no Recreio dos Bandeirantes e Barra da Tijuca, e talvez um dos maiores desafios do meu papel não seja ensinar técnica, nem formar instrutor. É saber falar não. Não vamos remar hoje. As condições não estão boas. E ponto final.
Agora imagina o cenário: aluno acorda 4h da manhã, se arruma, atravessa a cidade, chega animado na areia… e recebe um não. Frustra. Irrita. Machuca o ego. Já perdi aluno por isso. Gente que acha que paga um plano de X aulas e que o mar tem obrigação de colaborar para fechar a conta do mês. Só que o mar não assina contrato. E segurança não é item negociável.
Coragem não é sair a qualquer custo. Coragem é sustentar a decisão impopular quando ela é a correta. Imprudência é confundir compromisso com teimosia.
E o problema não para aí. O mercado de Va’a inchou. Clube brotando em toda esquina. E junto vem a disputa mais burra que existe: preço. Quando a mensalidade vira guerra, a margem some. E quando a margem some, o investimento cai. Manutenção vira “depois a gente vê”. Substituição de canoa vira “aguenta mais um pouco”.
É aí que o risco entra sem pedir licença. Iako cansado de sol e sal quebra. Amarração antiga cede. Canoa mal mantida naufraga num huli que, em condições normais, seria só mais um treino duro. O mar não perdoa descuido técnico disfarçado de coragem.
E ainda tem o básico, o óbvio, o indiscutível: colete salva-vida. Algo simples, indolor, barato. Mas que ainda mexe com o ego de muita gente no Va’a. “Ah, eu sei nadar.” “Isso atrapalha.” “Nunca precisei.” Pois é… como diz o ditado antigo — e cruelmente verdadeiro — só morre quem sabe nadar. A maioria dos acidentes graves envolve remadores experientes, gente boa, técnica afiada, que confia demais na sorte. E sorte não bate ponto todo dia.
Coragem, na canoa havaiana, é respeitar o mar, o equipamento e o grupo. É saber que voltar inteiro é mais importante do que sair bonito. Imprudência é usar discurso heroico para justificar gestão frouxa, manutenção precária e decisões irresponsáveis.
No fim do dia, o mar continua lá amanhã. O aluno frustrado pode até ir embora hoje. Mas a vida que você protegeu não volta se você errar. E gestor que entende isso dorme com a consciência tranquila — mesmo quando o treino é cancelado e a areia fica vazia.
Coragem não é desafiar o mar. Coragem é saber a hora de recuar. E isso, infelizmente, nem todo mundo está pronto para aceitar.