A romantização do perrengue no Va’a


Foto Ilustrativa
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A romantização do perrengue no Va’a

O mundo Va’a virou, em parte, um grande palco de vaidade. Perrengue virou medalha invisível. Quanto mais caos, mais peito estufado. “Faz parte do aprendizado”, dizem. “Todo mundo passa por isso”, repetem. Bonito no Instagram, perigoso na vida real.

Vamos ser diretos: perrengue evitável não é tradição, é falha de gestão. Não tem nada de épico em colocar aluno iniciante, sem leitura de mar, sem preparo emocional e técnico, em situação de risco desnecessário. Isso não forma remador. Isso forma estatística.

Existe uma diferença brutal entre aprendizado real e negligência disfarçada de experiência. O mar já é imprevisível por natureza. Quando o gestor, o instrutor ou o clube adiciona risco por descuido, teimosia ou ego, o problema não é o oceano. É humano mesmo.

No Va’a, muitos erros são conhecidos, repetidos e… abafados. Ninguém gosta de falar do quase acidente. Do retorno no limite. Da decisão errada que “no fim deu tudo certo”. Deu certo dessa vez. O problema é que pouca gente está preparada para ouvir crítica, muito menos para aceitar sugestão de melhoria. Mudar comportamento dói mais que remar contra vento.

Só que ignorar esses alertas tem um efeito colateral grave: quando a gente não se regula, alguém de fora regula por nós. E regula mal. Regula sem entender o esporte, a cultura, o mar, o contexto. Regula no papel, no gabinete, longe da água.

Quem tem memória curta esquece rápido de 2025. Uma modalidade irmã da nossa sofreu uma canetada bonita da Prefeitura do Rio de Janeiro. Resultado? Regras genéricas, restrições exageradas e o fim – ou quase isso – de um dos programas mais simbólicos: o passeio de stand up paddle ao nascer do sol. Não acabou porque era perigoso. Acabou porque faltou maturidade coletiva antes.

No Bravus Va’a, na Barra da Tijuca e no Recreio, a gente escolheu um caminho menos glamouroso e bem mais chato: prevenção, protocolo, decisão impopular quando precisa. Melhor frustrar na areia do que virar história mal contada depois. Melhor aluno reclamando do cancelamento do que família reclamando no hospital.

Va’a não é democracia em situação crítica. E também não é reality show de sobrevivência. É cultura, é tradição, é respeito ao mar e às pessoas. Perrengue não é certificado de competência. Segurança nunca foi inimiga da evolução — pelo contrário, sempre foi a base dela.

Romantizar o erro pode render história. Corrigir o erro garante que todo mundo volte pra casa pra contar outra amanhã.

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