No Va’a, abortar uma remada não é covardia, não é exagero e muito menos incompetência. É leitura correta do cenário. É maturidade. Na Bravus Va’a isso não é papo bonito pra rede social, é protocolo. E é levado a sério.
Eu sempre falo para os instrutores: é melhor frustrar na areia do que chorar depois da merda feita com alguém machucado. A frustração passa. Lesão, trauma e processo judicial não. Simples assim.
Se dependesse dos alunos, a gente entraria em qualquer condição. Sempre tem alguém empolgado, alguém que “já fez pior”, alguém que acha que dá pra ir só até ali e voltar. O problema é que o mar não negocia, não quer saber de currículo do Instagram e não perdoa erro coletivo. Treino não é democracia. Segurança não pode ser decidida por quem não carrega a responsabilidade.
A primeira coisa que a gente avalia não é o vento nem a ondulação, é o grupo. Nível técnico dos remadores, idade, preparo físico, se sabe nadar de verdade — não é boiar, é nadar — e, principalmente, se temos bons lemes capazes de conduzir a canoa com autoridade. Sem leme bom, não existe plano B. Existe só sorte. E sorte não entra no protocolo.
Depois disso vem o mar. E mar é contexto, não número de aplicativo. No Pontal do Recreio, por exemplo, a saída já começa com ondulação, divisão de raia com surfistas, escolinhas de natação, banhistas e curiosos. Agora imagina tentar sair com mar grande num sábado e voltar com milhares de pessoas na água. Isso não é treino, é brincar de boliche com uma bola de mais de uma tonelada em movimento. Uma canoa fora de controle não machuca, ela atropela.
Por isso, muitas vezes a decisão mais correta é não sair. Ou sair com limitações. Na Bravus Va’a, também existe protocolo para restringir a aula antecipadamente até mesmo para remadores mais experientes. O objetivo não é provar quem é macho ou quem aguenta mais porrada. O objetivo é não deixar todo mundo na areia, mantendo segurança, fluidez e controle da operação.
Abortar uma remada é entender que o treino de hoje não pode comprometer o amanhã. É saber que consistência se constrói com decisões chatas, não com bravata. Quem confunde coragem com imprudência ainda não entendeu o jogo. E no Va’a, esse jogo é longo.
Mar sempre vai estar lá amanhã. Gente machucada, às vezes, não volta mais.